Tendências contemporâneas: prosa
15 questões. Resolver no Descomplica
Questão 1

O cartum em questão é do cartunista e cronista Luís Fernando Veríssimo que, em geral, usufrui do teor humorístico de seus textos para fazer uma crítica política, social e/ou cultural. Qual seria a crítica de Veríssimo à atual política?
Crente que os costumes conservadores conseguirão solucionar a problemática.
Fiel em sua crença anti-governo, o que culmina para a representação dos personagens (inanimados e disformes).
Inovadora e positiva, de modo a concretizar a necessidade de mudanças, sugerindo em seu último quadrinho.
Relacionando os políticos como “cobras”, assim sendo a relação de seus personagens parte da característica da crítica.
Crítico com os casos de corrupção dos dirigentes políticos, por meio da condição e recompensa.
Questão 2
As tendências contemporâneas, por apresentarem manifestações até os dias atuais:
Buscam retomar a literatura clássica, a fim de resgatar estéticas originárias.
Promovem a liberdade de expressão, no que diz respeito à linguagem e temas.
Não garantem uma temática específica, contudo apresentam formalidade na escrita.
Questão 3
Há muitos autores relevantes na produção prosaica da literatura contemporânea. São eles:
Rubem Braga e Manuel Bandeira
Casimiro de Abreu e Luís Fernando Veríssimo
Caio Fernando de Abreu e Nelson Rodrigues
Lygia Fagundes Telles e Rachel de Queiroz
Questão 4
PORTO
E o navio fantasma atracou na terceira margem do rio.
_COLASANTI, Marina. Hora de alimentar serpentes. São Paulo: Global, 2013._
A TERCEIRA MARGEM DO RIO
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e
menino, pelo que testemunharam as diversas pessoas sensatas, quando indaguei a informação.
Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros,
conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente -
minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si
uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a
tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida
forte e arquejada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa
mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora
para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais
próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado
que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em
que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente.
Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez nenhuma recomendação. Nossa
mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e
bramou:
"Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso
para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci,
de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: - "Pai, o
senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção,
com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber.
Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo - a sombra dela por
igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se
permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não
saltar, nunca mais. [...]
_GUIMARÃES ROSA, João. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 79-80.
arqueado: com forma de arco, curvado_O miniconto de Marina Colasanti faz referências explícitas ao conto de Guimarães Rosa. Essa estratégia presente em diversos outros momentos do livro configura um recurso da linguagem conhecido como:
ironia
designação
verossimilhança
intertextualidade
Questão 5
PORTO
E o navio fantasma atracou na terceira margem do rio.
_COLASANTI, Marina. Hora de alimentar serpentes. São Paulo: Global, 2013._
A TERCEIRA MARGEM DO RIO
Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e
menino, pelo que testemunharam as diversas pessoas sensatas, quando indaguei a informação.
Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros,
conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente -
minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si
uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a
tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida
forte e arquejada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa
mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora
para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais
próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado
que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em
que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente.
Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez nenhuma recomendação. Nossa
mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e
bramou:
"Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso
para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci,
de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: - "Pai, o
senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção,
com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber.
Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo - a sombra dela por
igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se
permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não
saltar, nunca mais. [...]
_GUIMARÃES ROSA, João. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 79-80.
arqueado: com forma de arco, curvado_
Segundo o Dicionário de símbolos, de Jean Chevalier e Alan Gheerbrant, "o simbolismo do rio e do fluir de suas águas é, ao mesmo tempo, o da possibilidade universal e o da fluidez das formas, o da fertilidade, da morte e da renovação." A partir dessa simbologia, tendo em vista a leitura de Hora de alimentar serpentes e o fragmento de Guimarães Rosa, é possível afirmar que o rioé uma metáfora dos desejos do ser humano.
seria um elemento que mostra a harmonia da sua vida.
pode revelar a necessidade de manutenção de suas raízes.
representa o desprezo do ser humano pela vida.
Questão 6
(Enem, 2012) Cabeludinho
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Quando a Vó me recebeu nas férias, ela me apresentou aos amigos: Este é meu neto. Ele foi estudar no Rio e voltou de ateu. Ela disse que eu voltei de ateu. Aquela preposição deslocada me fantasiava de ateu. Como quem dissesse no Carnaval: aquele menino está fantasiado de palhaço. Minha avó entendia de regências verbais. Ela falava de sério. Mas todo-mundo riu. Porque aquela preposição deslocada podia fazer de uma informação um chiste. E fez. E mais: eu acho que buscar a beleza nas palavras é uma solenidade de amor. E pode ser instrumento de rir. De outra feita, no meio da pelada
um menino gritou: Disilimina esse, Cabeludinho. Eu não disiliminei ninguém. Mas aquele verbo novo trouxe um perfume de poesia à nossa quadra. Aprendi nessas férias a brincar de palavras mais do que trabalhar com elas. Comecei a não gostar de palavra engavetada. Aquela que não pode mudar de lugar. Aprendi a gostar mais das palavras pelo que elas entoam do que pelo que elas informam. Por depois ouvi um vaqueiro a cantar com saudade: Ai morena, não me escreve / que eu não sei a ler. Aquele a preposto ao verbo ler, ao meu ouvir, ampliava a solidão do vaqueiro.
_BARROS, M. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003._
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No texto, o autor desenvolve uma reflexão sobre diferentes possibilidades de uso da língua e sobre os sentidos que esses usos podem produzir, a exemplo das expressões “voltou de ateu”, “disilimina esse” e “eu não sei a ler”. Com essa reflexão, o autor destaca:os desvios linguísticos cometidos pelos personagens do texto.
a importância de certos fenômenos gramaticais para o conhecimento da língua portuguesa.
a distinção clara entre a norma culta e as outras variedades linguísticas.
o relato fiel de episódios vividos por Cabeludinho durante as suas férias.
a valorização da dimensão lúdica e poética presente nos usos coloquiais da linguagem.
Questão 7
(Enem, 2021)
– O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar num troço chamado autoridades constituídas? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada Exército Brasileiro, que o senhor tem de respeitar? Que negócio é esse? […] Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: “dura lex”! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o General, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor. […] Foi então que a mulher do vizinho do General interveio:
– Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido? O delegado apenas olhou-a, espantado com o atrevimento.
– Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso importunaram o General, ele que viesse falar comigo, pois o senhor que sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel, e filha de um General! Morou? Estarrecido, o delegado só teve força para engolir em seco e balbuciar humildemente: – Da ativa, minha senhora?
SABINO, F. A mulher do vizinho. In: Os melhores contos. Rio de Janeiro: Record, 1986.
A representação do discurso intimidador engendrada no fragmento é responsável porironizar atitudes e ideias xenofóbicas.
conferir à narrativa um tom anedótico.
dissimular o ponto de vista do narrador.
acentuar a hostilidade das personagens.
exaltar relações de poder estereotipadas.
Questão 8
(Enem, 2015) Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio. As mulheres, principalmente as mortas do álbum, eram maravilhosas. Os homens, mais maravilhosos ainda, ah, difícil encontrar família mais perfeita. A nossa família, dizia a bela voz de contralto da minha avó. Na nossa família, frisava, lançando em redor olhares complacentes, lamentando os que não faziam parte do nosso clã. [...]
Quando Margarida resolveu contar os podres todos que sabia naquela noite negra da rebelião, fiquei furiosa. [...]
É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos. Mas Margarida seguia em frente: tio Maximiliano se casou com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não passava de um pilantra, a loirinha feiosa era riquíssima. Tia Consuelo? Ora, tia Consuelo chorava porque sentia falta de homem, ela queria homem e não Deus, ou o convento ou o sanatório. O dote era tão bom que o convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo. “E tem mais coisas ainda, minha queridinha", anunciou Margarida fazendo um agrado no meu queixo. Reagi com violência: uma agregada, uma cria e, ainda por cima, mestiça. Como ousava desmoralizar meus heróis?
TELLES, L. F. A estrutura da bolha de sabão. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Representante da ficção contemporânea, a prosa de Lygia Fagundes Telles configura e desconstrói modelos sociais. No trecho, a percepção do núcleo familiar descortina um(a)<br>convivência frágil ligando pessoas financeiramente dependentes.
tensa hierarquia familiar equilibrada graças à presença da matriarca.
pacto de atitudes e valores mantidos à custa de ocultações e hipocrisias.
tradicional conflito de gerações protagonizado pela narradora e seus tios.
velada discriminação racial refletida na procura de casamentos com europeus.
Questão 9
(Enem, 2008) São Paulo vai se recensear. O governo quer saber quantas pessoas governa. A indagação atingirá a fauna e a flora domesticadas. Bois, mulheres e algodoeiros serão reduzidos a números e invertidos em estatísticas. O homem do censo entrará pelos bangalôs, pelas pensões, pelas casas de barro e de cimento armado, pelo sobradinho e pelo apartamento, pelo cortiço e pelo hotel, perguntando:
— Quantos são aqui?
Pergunta triste, de resto. Um homem dirá:
— Aqui havia mulheres e criancinhas. Agora, felizmente, só há pulgas e ratos.
E outro:
— Amigo, tenho aqui esta mulher, este papagaio, esta sogra e algumas baratas. Tome nota dos seus nomes, se quiser. Querendo levar todos, é favor… (…)
E outro:
— Dois, cidadão, somos dois. Naturalmente o sr. não a vê. Mas ela está aqui, está, está! A sua saudade jamais sairá de meu quarto e de meu peito!
Rubem Braga. Para gostar de ler. v. 3 São Paulo: Ática, 1998, p. 32-3 (fragmento).O fragmento acima, em que há referência a um fato sócio histórico — o recenseamento —, apresenta característica marcante do gênero crônica ao
expressar o tema de forma abstrata, evocando imagens e buscando apresentar a ideia de uma coisa por meio de outra.
manter-se fiel aos acontecimentos, retratando os personagens em um só tempo e um só espaço.
contar história centrada na solução de um enigma, construindo os personagens psicologicamente e revelando-os pouco a pouco.
evocar, de maneira satírica, a vida na cidade, visando transmitir ensinamentos práticos do cotidiano, para manter as pessoas informadas.
valer-se de tema do cotidiano como ponto de partida para a construção do texto que recebe tratamento estético.
Questão 10
(Enem – 2020) Viajo Curitiba das conferências positivistas, elas são onze em Curitiba, há treze no mundo inteiro; do tocador de realejo que não roda a manivela desde que o macaquinho morreu; dos bravos soldados do fogo que passam chispando no carro vermelho atrás do incêndio que ninguém não viu, esta Curitiba e a do cachorro quente com chope duplo no Buraco do Tatu eu viajo.
Curitiba, aquela do Burro Brabo, um cidadão misterioso morreu nos braços da Rosicler, quem foi? quem não foi? foi o reizinho do Sião; da Ponte Preta da estação, a única ponte da cidade, sem rio por baixo, esta Curitiba viajo.
Curitiba sem pinheiro ou céu azul, pelo que vosmecê é — província, cárcere, lar—, esta
Curitiba, e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo.
TREVISAN. D. Em busca de Curitiba perdida. Rio de Janeiro: Record. 1992.
A tematização de Curitiba é frequente na obra de Dalton Trevisan. No fragmento, a relação do narrador com o espaço urbano é caracterizada por um olhardestituído de afetividade, que ironiza os costumes e as tradições da sociedade curitibana.
marcado pela negatividade, que busca desconstruir perspectivas habituais de representação da cidade.
carregado de melancolia, que constata a falta de identidade cultural diante dos impactos da urbanização.
embevecido pela simplicidade do cenário, indiferente à descrição de elementos de reconhecido valor histórico
distanciado dos elementos narrados, que recorre ao ponto de vista do viajante como expressão de estranhamento.
Questão 11
(Enem, 2014)
Em bom português
No Brasil, as palavras envelhecem e caem como folhas secas. Não é somente pela gíria que a gente é apanhada (aliás, já não se usa mais a primeira pessoa, tanto do singular como do plural: tudo é “a gente”). A própria linguagem corrente vai-se renovando e a cada dia uma parte do léxico cai em desuso. Minha amiga Lila, que vive descobrindo essas coisas, chamou minha atenção para os que falam assim: — Assisti a uma fita de cinema com um artista que representa muito bem. Os que acharam natural essa frase, cuidado! Não saberão dizer que viram um filme com um ator que trabalha bem. E irão ao banho de mar em vez de ir à praia, vestido de roupa de banho em vez de biquíni, carregando guarda-sol em vez de barraca. Comprarão um automóvel em vez de comprar um carro, pegarão um defluxo em vez de um resfriado, vão andar no passeio em vez de passear na calçada. Viajarão de trem de ferro e apresentarão sua esposa ou sua senhora em vez de apresentar sua mulher.
SABINO,F. Folha de S.Paulo, 13 abr. 1984 (adaptado).
A língua varia no tempo, no espaço e em diferentes classes socioculturais. O texto exemplifica essa característica da língua, evidenciando que<br>o uso de palavras novas deve ser incentivado em detrimento das antigas.
a utilização de inovações no léxico é percebida na comparação de gerações.
o emprego de palavras com sentidos diferentes caracteriza diversidade geográfica.
a pronúncia e o vocabulário são aspectos identificadores da classe social a que pertence o falante.
o modo de falar específico de pessoas de diferentes faixas etárias é frequente em todas as regiões.
Questão 12
(Enem 2019) <p style="text-align: justify;"> Ela nasceu lesma, vivia no meio das lesmas, mas não estava satisfeita com sua condição. Não passamos de criaturas desprezadas, queixava-se. Só somos conhecidas por nossa lentidão. O rastro que deixaresmos na História será tão desprezível quanto a gosma que marca nossa passagem pelos pavimentos.</p>
<p style="text-align: justify;"> A esta frustração correspondia um sonho: a lesma queria ser como aquele parente distante, o escargot. O simples nome já a deixava fascinada: um termo francês, elegante, sofisticado, um termo que as pessoas pronunciavam com respeito e até com admiração. Mas, lembravam as outras lesmas, os escargots são comidos, enquanto nós pelo menos temos chance de sobreviver. Este argumento não convencia a insatisfeita lesma, ao contrário: preferiria exatamente terminar sua vida desta maneira, numa mesa de toalha adamascada, entre talheres de prata e cálices de cristal. Assim como o mar é o único túmulo digno de um almirante batavo, respondia, a travessa de porcelana é a única lápide digna dos meus sonhos.</p>
<p style="text-align: right;">SCLIAR, M. Sonho de lesma. In: ABREU, C. F. et al. <strong>A prosa do mundo.</strong> São Paulo: Global, 2009.</p>
<p style="text-align: right;"> </p>
<p>Incorporando o devaneio da personagem, o narrador compõe uma alegoria que representa o anseio de</p>rejeitar metas de superação de desafios.
restaurar o estado de felicidade de desafios.
materializar expectativas de natureza utópica.
rivalizar com indivíduos de condição privilegiada.
valorizar as experiências hedonistas do presente.
Questão 13
(Enem, DIGITAL, 2020) Pessoal intransferível
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, “herdeiro” da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.
TORQUATO NETO. Melhores poemas de Torquato Neto. São Paulo: Global, 2018.Expoente da poesia produzida no Brasil na década de 1970 e autor de composições representativas da Tropicália, Torquato Neto mobiliza, nesse texto,
gírias e expressões coloquiais para criticar a linguagem adornada da tradição literária então vigente.
intenções satíricas e humorísticas para delinear uma concepção de poesia voltada para a felicidade dos leitores.
frases de efeito e interpelações ao leitor para ironizar as tentativas de adequação do poema ao gosto do público.
recursos da escrita em prosa e noções do senso comum para enfatizar as dificuldades inerentes ao trabalho do poeta
referências intertextuais e anedóticas para defender a importância de uma atitude destemida ante os riscos da criação poética.
Questão 14
(Enem, 1999) O pavão
Eu considerei a glória de um pavão, ostentando o esplendor, de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Rubem Braga. Disponível em: https://peregrinacultural.wordpress.com/2013/01/18/o-pavao-texto-de-rubem-braga/
Nos trechos: “O pavão é um arco-íris de plumas” e “…de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira…” enquanto procedimento estilístico, temos, respectivamente:na passagem, “Mas andei lendo livros” (ref. 1), o emprego do gerúndio indica uma relação de
proporcionalidade.o pronome demonstrativo “este” (ref. 2) exemplifica um caso de coesão anafórica, pois seu
referente textual vem expresso no parágrafo seguinte.o articulador temporal “por fim” (ref. 3) assinala, no desenvolvimento do texto, a ordem segundo a
qual o assunto está sendo abordado.a expressão “Oh! minha amada” (ref. 4) é um termo resumitivo que articula a coerência entre a
beleza do pavão e a simplicidade do amor.o pronome pessoal “ele” (ref. 5), na progressão textual, faz uma referência ambígua a “pavão”.
Questão 15
(UERJ, 2020) PARA COMEÇAR
Desejou ter a beleza de uma árvore frondosa tatuada nas costas, copa espraiada sobre os ombros. Temendo, porém, o longo sofrimento imposto pelas agulhas, mandou tatuar na base da coluna, bem na base, a mínima semente.Observe a imagem abaixo, que reproduz o quadro de René Magritte chamado “A Clarividência”.

O par “semente-árvore” do conto pode ser comparado ao par “ovo-ave” do quadro, devido a uma mesma relação existente entre os elementos de cada par.
Essa relação expressa, no contexto das duas obras, a ideia de:simultaneidade
possibilidade
instabilidade
uniformidade